sentimento do mundo

[ Quarta-feira, Dezembro 10, 2008 ]

 
Quem é Luísa Picanço?

Olha que interessante é a vida.

Eu, em minha tarde ociosa, resolvi me dedicar a busca por meu nome na famosa enciclopédia googlônica.

Vi alguns textos publicados como jornalista, alguns nomes em concurso, outros tantos referentes ao meu blog, nada além do esperado.

Foi aí, que meus olhinhos se depararam com uma situação, ou melhor, um site, inusitado. Um tal de http://buscacepbrasil.com/ver/amapa/macapa/sao-lazaro/ ,e eu descobri que sou nome de via pública em Macapá.

Explico melhor. Existe uma rua no bairro São Lazaro, Macapá – AP , que se chama Rua Luisa Picanço! Ooooooooh! Fiquei emocionada. Obrigada povo do Amapá, se soubesse que era tão querida, teria ido visitá-los! Agora que sei, eu vou!

Brincadeiras a parte, eu fiquei muito curiosa para saber quem poderá ser ou ter sido essa tal de Luisa Picanço. Será que era política? Mulher de político? Alguém da alta nata macapaense? Ou será que era uma mãe de santo? Talvez uma missionária.

Eu, particularmente, queria que ela fosse uma escritora. Assim eu e ela poderíamos trocar figurinhas, ela poderia me contar (isso claro, se fosse viva) como virou nome de Rua, o que eu preciso fazer para ter minha própria via pública.

Ah, também ia gostar se a Luísa Picanço fosse uma defensora dos direitos humanos . Uma jurista! Imagina que luxo poder dizer que sou homônima de uma mulher que fez do Amapá um estado mais justo.

Quem sabe ela não foi uma importante dançarina de "marabaixo" ou "batuque"? Será que foi ela quem inventou a gengibirra (bebida típica da região)?

Eu realmente não sei. Antes o Macapá nem fazia parte dos lugares que queria conhecer antes de morrer. Bom, fazia, claro, por ser uma capital brasileira, mas não porque era o Macapá, entende? Mas agora, com uma rua dessas. Tá anotado! Preciso conhecer Macapá. E todo mundo que me conhece deveria fazer o mesmo.

Ah, se alguém souber quem é essa ilustre Luisa Picanço, por favor, me diga. Embora em meus delírios, acredite que algum Macapaense importante talvez tenha secretamente se apaixonado por mim e me feito tal delicada homenagem.

Só sei de uma coisa. Eita nome bonito!

Luluzinha [6:15 PM]

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[ Terça-feira, Dezembro 09, 2008 ]

 
Palmas pra que te quero






No último fim de semana fui ao teatro, assistir um coral de Natal. A apresentação foi bonita, as pessoas estavam arrumadas, tudo com aquele clima de glamour meio decadente do teatro nacional. Mas uma coisa me chamou a atenção. Foram os aplausos.

Digo melhor, os aplausos fora de hora. Em um concerto, às vezes, o maestro faz uma pausa técnica, mas algumas pessoas da platéia não sabem disso e aplaudem fora de hora. Até aí tudo bem. Ou melhor, tudo mal, que vergonha aplaudir no momento errado.

Só que eu, dessa vez fiquei com pena. Fiquei com vontade de aplaudir também, só como voluntária, sabe? Já é bem vergonhoso bater palmas e não conseguir coro do resto do público. E afinal de contas, as pessoas aplaudiram porque estavam gostando do espetáculo. Não seria solidário aplaudir também? Ok! Sei que pode atrapalhar a concentração do maestro, mas sejamos sinceros, não são os aplausos o que o maestro quer?

Foi por isso que fiquei com pena. Pq as palmas foram tímidas, poucas, mas sinceras. É, tava fora do protocolo, mas foram dignas. Tem gente por aí que quebra o protocolo, por exemplo, dizendo que para se tornar presidente não se precisa estudar. Se até no governo federal o protocolo está em baixa, por que aplaudir fora da hora é tão constrangedor? Eu fiquei com pena das pessoas que não conhecem o rigor de uma peça musical. Os coitados levaram vários shiiiiis e o maestro se mostrou incomodado com as palmas.

Tenho uma proposta para solucionar o problema. Dá próxima vez que alguém for ao teatro assistir um concerto de música ou um coral, não se incomode tanto com a gafe de quem aplaudiu fora de hora. Se não podemos ser solidários, ao menos não vamos deixar os outros sem graça, afinal, foi só uma homenagem em um momento indevido.

Ao contrário disso, se preocupem com a baixa de protocolo na diplomacia, na casa civil, no palácio do planalto. Lá sim, quando alguém falar uma asneira do tipo “ninguém mais precisa estudar nesse país”, façamos shiiiiiiiiiiiiiiiiiii, gritemos “pelo amor de Deus, olha o protocolo!” Se não adiantar, podemos até vaiar, dependendo da gafe, mas não vamos mais aplaudir, como temos feito. Essas sim, são palmas completamente burras.

Luluzinha [4:02 PM]

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[ Quarta-feira, Março 26, 2008 ]

 
Mentiras, atrasos e precipitações


Ela estava sentada na cadeira de balanço, relíquia de sua bisavó, passada de geração em geração, quando ele chegou.
Chegou suando, com olhos esbugalhados, com a cara de desespero.

Desespero.

Ela o fitou, perguntou porque ele estava com aquela cara de quem viu fantasma.
Ele não conseguia falar. Não teria coragem de contar o que acabara de escutar.
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Algumas horas antes...

Gare de Lyon – Paris - 15hs

O telefone móvel toca. La mère... A mãe pergunta à sua pequena onde ela está.
Fazia dois dias que não conseguia falar com ela.
A moça disse que estava a caminho da faculdade, no metrô de Lyon.

Mentiu.

A gare de Lyon fica em Paris e ela acabara de chegar, ia passar o fim de semana na capital,
mas resolveu ir antes, le jeudi, mataria um dia de aula para conhecer um rapaz.
Quem sabe não era o amor de sua vida?
Mal sabia ela que a mentira boba que contara à mãe, traria consequências, no mínimo, desastrosas.


Ao mesmo tempo, na mesma Gare

Train de Grenoble

Ele estava de camisa negra, tinha obtido uma ordem:
Procure a moça, ouça o recado, vá ao local indicado por ela, ligue de volta para o chefe e vá embora.
É só isso que precisa fazer.

As referencias da moça eram: cerca de 20 anos, cabelos longos e castanhos, vestida de vermelho,
com um cigarro na mão esquerda e um celular na direita.
Ela estaria falando com alguém ao telefone, mas na verdade o recado era para ele,
que deveria estar de camisa preta.



Estação de Waterloo – Londres– 14hs

Antes da descida da escada rolante, antes de sair da cidade que mais parecia sua
do que de qualquer outra pessoa, ele olhou o relógio.
Eram 13:40hs, quase hora da partida.
Ia pegar o trem para Paris, conhecer uma amiga de um amigo.

Amigo esse que fez a maior propaganda da garota.
Disse que era linda e que tinha os cabelos longos e uma personalidade forte, determinada.
Que tinha os olhos mais lindos de toda a França, apesar de ser catalã.

Será que ela ia gostar dele? Não se considerava dono de olhos significativos,
embora uma amiga certa vez se admirasse com a capacidade latina de exprimir brilho em um simples olhar.
Também não era um Deus grego. Longe disso, era um rapaz magro e baixo, com ares de plebeu.
Não tinha atrativo físico nenhum, nada assim, que fosse destacável, ao menos ele achava que não.
Então como ela, essa possível Vênus moderna vinda diretamente da Catalunia poderia se interessar por ele?
Teria de ganhar-la no papo. Por sorte falava francês, assim como ela, que afinal, morava na França.
A cidade era Lille. Ou seria Lyon? Era um nome com L...
Mas isso pouca diferença faria, eles se conheceriam na cidade luz, cidade dos amantes, dos amores, dos encantos. Ia dar certo!

E por muito pouco não foi derrubado escada abaixo por um francês com pressa de pegar o trem.


Gare de Lyon – Paris – 15:08hs

La femme, c’est elle. Lá estava ela com a roupa vermelha e o celular na mão.
Mas onde diabos estava o cigarro?
Ele não conseguia identificar o que ela carregava na mão esquerda, parecia mais um pedaço de papel que um cigarro.
Se era um cigarro, certamente estava apagado.
Mas ela estava ao lado da boulangerie, no horário marcado, com o telefone na orelha.

Só podia ser ela.

Ele ouviu o recado. Não entendeu nada. Que língua era aquela? Espanhol?
Odiava esse trabalho, queria ir pra casa.
Ninguém o avisara dessa parte, ele se sentia usado.
Queria mesmo ir para casa!
Olhou ao redor, será que ela não era a informante?
Conseguiu entender metrô de Lyon.
Vai ver a moça falara em outra língua para não correr o risco da informação vazar.


Olhou mais uma vez ao redor e depois confirmou o horário, só havia aquela moça, naquele lugar, só podia ser ela.
E o recado estava dado. Mas porque o fizeram sair de Grenoble se o serviço era em Lyon.
Putains de merde! Quand-même...


Precipitou-se.


Eurostar - Canal da mancha – 14:40hs

— Era Lyon! Esse era o nome da cidade!


Boulevard Diderot – Paris – 15:35hs

Eva ligou para Daniel:

— Dani, estou em Paris, na rua da Gare. Mas vou voltar pra Lyon.
Não me sinto bem. Avise Santiago.
Diga-o que sinto muitíssimo e que o espero em Lyon para que ele não perca a viagem de Londres até aqui.
Diga-o para pegar o trem na Gare em Paris e ir me encontrar.
Passo o endereço e as coordenadas. Quero mesmo conhecê-lo.


Champs Élysées – Paris – 12hs

— Diga ao Sr. Presidente que eu cansei. Estou chateada com todo esse protocolo. Vou para Roma.
Je m’en fiche.. Ele nunca mais vai me ver.


Gare de Lyon – Paris – 15:20hs

Uma moça de seus 20 anos chegara afobada em frente à boulangerie,
estava atrasada quase vinte minutos. Falha grave.
Até porque não sabia a quem iria informar.
Só sabia que era homem e estaria de camisa negra.
Uma referência idiota, já que essa é uma cor comum para camisas maculinas.
Mas passou a falar no celular conforme combinado.

— Onde? Roma? Eu não estou entendendo muito bem. Roma? Mas o que você vai fazer em Roma?

Um homem de camisa preta passara.


Gare du Nord – Paris – 16:15hs

— Santiago? É o Dani. A Eva saiu de Paris.
Não estava bem. Disse que precisava ir para Lyon.
Deixou o endereço para você encontrá-la.
Insistiu para que eu te dissesse que ela quer mesmo conhecer-lo.
Perguntou se você quer conhecer Lyon.

— Pode ser. Dê-me as coordenadas, Dani.


Gare Lyon part dieu – Lyon – 17hs


Jean Luc? Jean Luc? Ça va?

Ele escutou uma voz conhecida, mas não pode virar, tinha pressa, precisava passar a informação adiante.
E assim o fez. Missão cumprida. Poderia voltar à Grenoble.
Estava louco para um gole de Chartreuse. Trabalho de merda. Presidente de merda.


Em alguma estação do metrô – Lyon – 18:30hs

Santiago não entrou no vagão.
Ficou com medo de conhecer Eva.
Receou.

Esperou o próximo trem.
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O trem não chegou. Em vez disso o vagão no qual Santiago não embarcou, explodiu.
Encomenda errada para um certo presidente.
Queriam matar a amante do governante em um atentado para mostrar a resistência estrangeira,
mostrar ao tal homem que a França nada seria sem os estrangeiros.
Mas era uma resistência amadora, descuidada, universitária. Estavam mal informados.
Só que queriam lutar e tinham força de vontade. O argumento da tal força era:
E o amor da vida do presidente não era também estrangeira?
Matá-la, com certeza, calaria a boca do preconceituoso.

Não deu certo.
L’amour de lui estava em Roma.
Os dois se falavam no momento do atentado em Lyon.
Faziam as pazes...

Santiago não morreu, mas Eva não sabia.

Horas depois recuperaria o bom senso, ligaria para Dani e descobriria o paradeiro do moço.

Porém, assim que soube do atentado no metrô ligou para o pai desesperada. Seu pai era seu porto seguro.
Falou que matara um homem, seguramente, não tinha premeditado nada, mas era fato.
O homem era Santiago, que estava preso na estação de metrô.
Aliás, como todos os sobreviventes ao atentado esperando segunda ordem da polícia francesa.
Infelizmente morreram duas pessoas no atentado.

O pobre do pai de Eva estava em Barcelona, longe da menina, saindo do trabalho.
Não entendeu nada da história da filha, que disse que estava em Paris,
mas agora estava em Lyon e matara um rapaz por ser inconsequente, que era culpa dela o moço ir à Lyon.
Desesperado, não sabia como chegaria em casa depois da revelação estapafúrdia da filha.
Nada fazia sentido ao coitado. Estava confuso e assustado. Como um gatinho acuado.
Sua pequena seria presa? O que ele faria? Como contaria à mulher o que acontecera?

Viu sua mulher assim que chegou.
Ela estava sentada na cadeira de balanço, relíquia de sua bisavó, passada de geração em geração com seu ar sereno de sempre.
Ele começou a suar muito, esbugalhou os olhos sem se dar conta.
Estava com cara de desespero.

Desespero.
Luluzinha [12:21 PM]

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[ Domingo, Junho 10, 2007 ]

 


Monet - Baie de Sainte Maxime

Momentos da minha França...

Luluzinha [8:11 PM]

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Essa música me trás tantas lembranças... O tempo passa e as coisas parecem vazias quando a gente não para pra conversar...

Somewhere Only We Know
Keane

Composição: Tom Chaplin

"I walked across an empty land
I knew the pathway like the back of my hand
I felt the earth beneath my feet
Sat by the river and it make me complete

Oh! Simple thing where have you gone
I'm getting old and I need something to rely on
So tell me when you're gonna let me in
I'm getting tired and I need somewhere to begin

I came across a fallen tree
I felt the branches of it looking at me
Is this the place, we use to love
Is this the place that I've been dreaming of

Oh! Simple thing where have you gone
I'm getting old and I need something to rely on
So tell me when you're gonna let me in
I'm getting tired and I need somewhere to begin

So If you have a minute why don't we go
Talk about it somewhere only we know?
This could be the end of everything
So why don't we go
Somewhere only we know?

Oh! Simple thing where have you gone
I'm getting old and I need something to rely on
So tell me when you gonna let me in
I'm getting tired and I need somewhere to begin

So If you have a minute why don't we go
Talk about it somewhere only we know?
This could be the end of everything
So why don't we go
So why don't we go

This could be the end of everything
So why don't we go
Somewhere only we know?"

Luluzinha [8:03 PM]

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[ Domingo, Junho 03, 2007 ]

 
Un moment au solei

Parece que o mundo parou num momento
E veio uma fada com sua varinha e me disse
Vai Luisa, você também pode ser gauche

E aqui estou eu
Com ares de plebeia
Com vontade de chorar
Na hora de partir

Foram noites e mais noites
De insônia
De sonhos, aventuras, surpresas
De revelações

Noites de risadas

Noites latinas
Noites americanas
Noites francesas
Noites saudosas

Foram dias e mais dias
Dias de parque
De piquenique, chocolates, cafés
De pensamentos

Dias de mercado

Dias de neve
Dias de flores
Dias de sol
Dias de choro

Foram festas, promessas, mentiras
Descobertas mil
Momentos guardados na retina da minha história

A Alemanha não é mais a mesma
Eu nunca mais esquecerei Valência
Agora já entendo o grupo ETA
E tenho respeito por Andaluzia

A Rússia não é mais um gigante gelado
Mas tem cabelos loiros
E um ar ingénuo de quem quer ser maduro

E Barcelona é meu Rio de Janeiro
Sonho dourado, nunca alcançado¿



De Grenoble tiro histórias
Tiro tintas
Tiro memórias
Cicatrizes do dia-a-dia
Espelho do que eu sou

Aqui nesse lugar
Blasfêmico até a alma
Existem anjos
Anjos disfarçados
De gente comum

Aqui nesse lugar
Eu conheci São Paulo
Estudei na USP
Revi a Ponta Verde
Reconheci o que é amar

Aqui nesse lugar
Eu descobri o quanto sou brasileira
O quanto o samba me comove
O quanto pode mover o mundo
Nosso simples olhar

México, China, Colômbia
Áustria, República Tcheca, Itália
Desmistifiquei a Inglaterra
Apaixomei-me por Portugal

Tudo tem sabor
Paella, Cassoulet
Pains au chocolat
Arroz à cubana
Omelete
Lavanda

Tudo tem cheiro
Cheiro de grama
De terra molhada
Cheiro de suor
Cheiro ruim
Cheiro de amizade
Cheiro de dor

Meus novos países se chamam
Bruno, Cecília, Marina, Eva
Andoni, Carlos, Maria, Elisa,
Anastácia, Gaúchos, Isis.
Martin, Cris, Dani o Adão

Espero visitá-los muitas vezes
E que eles saibam que no meu país
Seja qual for, eles sempre meus amigos serão.


Daqui eu volto
Volto outra
Com o bolso cheio
Cheio de sonhos
Cheio de ideias
Cheio de vontade
Completo de saudades.

Luluzinha [12:20 PM]

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[ Quinta-feira, Janeiro 18, 2007 ]

 
Salut
C'est moi!
Quem?
Moi
Não entendo
Mon Dieu
Ai meu Deus, quem será?
Qui est lá?
Eu já disse
C'est moi!
Ufa, assustou-me
Ah, bon!?
Entre
Merci
É você mesmo?
Oui
Ah, bom.
C'est bizarre
Mas sou eu.


Luluzinha [12:38 AM]

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[ Sexta-feira, Setembro 29, 2006 ]

 

Parece que o mundo parou e
nao me avisaram

Parece que o mundo
nao existe
E eu olho da janela do trem

Tem um rio
tem uma ponte
tem gente de tudo que eh raça

E eu que achava o Brasil
misturado

Faz tanto tempo que
eu nao o tenho
nem parece que sao
so cinco dias

O mundo nao passa
e o trem nao espera
e eu estou perdida
estou completamente
apaixonada
e longe
de tudo que mais amo
Luluzinha [7:47 PM]

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[ Quarta-feira, Setembro 20, 2006 ]

 
A professora

A primeira vez que ela entrou na minha sala, exalava um perfume adocicado mixado com bala de eucalipto e cigarro, apesar de nunca tê-la visto fumar. Tinha um ar sério e reservado, embora seu canto de olho exprimisse um suave ar sapeca, com um sorriso enigmático de grande dama.

Entrou na minha vida por acaso, desconfiada da minha capacidade de aprender a língua que ela representa com tanto valor. Quase sua primeira língua eu diria, ao menos para mim que só a ouvia falar em francês. Tive de pedir ajuda da minha mãe porque a professora exigia dar aula para no mínimo dois alunos, que soubessem ao menos um pouco de francês. Eu sabia muito pouco mesmo, foi sorte minha ela não desistir. Mal sabia o bem que me fazia, pois foi esse pré-requisito uma excelente maneira de me aproximar de minha mãe.

À medida que o tempo passava, eu progredia no francês, talvez mais por mérito dela que por minha disciplina, nunca fui disciplinada. Na época eu fazia francês por um motivo específico, queria estudar na França, por um convênio universitário. Qual não foi minha surpresa quando descobri que estava completamente apaixonada pela língua e pela cultura francesa, de tal maneira que nem por um segundo vacilei em viajar e morar fora, pelo contrário, as aulas sempre foram uma espécie de motivação para mim.

Por mais estranho que possa parecer, nossas aulas eram próximas a sessões psicanalíticas e tinham uma profundidade que nunca vi antes. Foi para mim uma lição de vida ter como exemplo uma professora tão consciente de sua qualidade profissional e que conseguia ser tão doce como ser humano e tão exigente como mestre.

É dessas professoras de estória, que são perto mesmo da perfeição e nem percebem isso no dia-a-dia. Uma das pessoas mais corretas que conhecerei. O mais engraçado de tudo é que ela não é mera ficção, existe mesmo. É portuguesa, ensina francês e mora no Brasil, uma verdadeira obra cosmopolita.

Luisa Picanço
Luluzinha [9:05 PM]

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[ Quarta-feira, Agosto 23, 2006 ]

 
Estou triste, muito triste
Luluzinha [5:50 PM]

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Numa ilha

Nunca mais a referência
Nunca mais o passeio
Nunca mais as estórias engraçadas

É o fim dos bolos caseiros
E das conversas amenas
E dos seus cabelos grisalhos

Nunca mais domingo na ilha
Nunca mais sorriso na casa
Nunca mais as flores na sala
Nunca mais a baixa tia alta.
Luluzinha [5:49 PM]

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[ Sexta-feira, Maio 26, 2006 ]

 
Sapato Novo/ Los Hermanos
Composição: Marcelo Camelo

"Bem, como vai você?
Levo assim calado de lá
tudo que sonhei um dia
como se a alegria
recolhesse a mão
pra não me alcançar

Poderia até pensar
que foi tudo sonho
ponho meu sapato novo
e vou passear
sozinho como der
eu vou até a beira
besteira qualquer
nem choro mais
só levo a saudade morena
é tudo que vale a pena"

Pintura de autor desconhecido

Luluzinha [3:07 PM]

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[ Quarta-feira, Maio 24, 2006 ]

 
Mãe

(Crônica dedicada ao Dia das Mães,
embora com o final inadequado, ainda que autêntico.)

Rubem Braga


"O menino e seu amiguinho brincavam nas primeiras espumas; o pai fumava um cigarro na praia, batendo papo com um amigo. E o mundo era inocente, na manhã de sol.

Foi então que chegou a Mãe (esta crônica é modesta contribuição ao Dia das Mães), muito elegante em seu short, e mais ainda em seu maiô. Trouxe óculos escuros, uma esteirinha para se esticar, óleo para a pele, revista para ler, pente para se pentear ¿ e trouxe seu coração de Mãe que imediatamente se pôs aflito achando que o menino estava muito longe e o mar estava muito forte.

Depois de fingir três vezes não ouvir seu nome gritado pelo pai, o garoto saiu do mar resmungando, mas logo voltou a se interessar pela alegria da vida, batendo bola com o amigo. Então a Mãe começou a folhear a revista mundana ¿ "que vestido horroroso o da Marieta neste coquetel" ¿ "que presente de casamento vamos dar à Lúcia? tem de ser uma coisa boa" ¿ e outros pequenos assuntos sociais foram aflorados numa conversa preguiçosa. Mas de repente:

¿ Cadê Joãozinho?

O outro menino, interpelado, informou que Joãozinho tinha ido em casa apanhar uma bola maior.

¿ Meu Deus, esse menino atravessando a rua sozinho! Vai lá, João, para atravessar com ele, pelo menos na volta!

O pai (fica em minúscula; o Dia é da Mãe) achou que não era preciso:

¿ O menino tem OITO anos, Maria!

¿ OITO anos, não, oito anos, uma criança. Se todo dia morre gente grande atropelada, que dirá um menino distraído como esse!

E erguendo-se olhava os carros que passavam, todos guiados por assassinos (em potencial) de seu filhinho.

¿ Bem, eu vou lá só para você não ficar assustada.

Talvez a sombra do medo tivesse ganho também o coração do pai; mas quando ele se levantou e calçou a alpercata para atravessar os vinte metros de areia fofa e escaldante que o separavam da calçada, o garoto apareceu correndo alegremente com uma bola vermelha na mão, e a paz voltou a reinar sobre a face da praia.

Agora o amigo do casal estava contando pequenos escândalos de uma festa a que fora na véspera, e o casal ouvia, muito interessado ¿ "mas a Niquinha com o coronel? não é possível!" ¿ quando a Mãe se ergueu de repente:

¿ E o Joãozinho?

Os três olharam em todas as direções, sem resultado. O marido, muito calmo ¿ "deve estar por aí", a Mãe gradativamente nervosa ¿ "mas por aí, onde?" ¿ o amigo otimista, mas levemente apreensivo. Havia cinco ou seis meninos dentro da água, nenhum era o Joãozinho. Na areia havia outros. Um deles, de costas, cavava um buraco com as mãos, longe.

¿ Joãozinho!

O pai levantou-se, foi lá, não era. Mas conseguiu encontrar o amigo do filho e perguntou por ele.

¿ Não sei, eu estava catando conchas, ele estava catando comigo, depois ele sumiu.

A Mãe, que viera correndo, interpelou novamente o amigo do filho. "Mas sumiu como? para onde? entrou na água? não sabe? mas que menino pateta!" O garoto, com cara de bobo, e assustado com o interrogatório, se afastava, mas a Mãe foi segurá-lo pelo braço: "Mas diga, menino, ele entrou no mar? como é que você não viu, você não estava com ele? hein? ele entrou no mar?".

¿ Acho que entrou... ou então foi-se embora.

De pé, lábios trêmulos, a Mãe olhava para um lado e outro, apertando bem os olhos míopes para examinar todas as crianças em volta. Todos os meninos de oito anos se parecem na praia, com seus corpinhos queimados e suas cabecinhas castanhas. E como ela queria que cada um fosse seu filho, durante um segundo cada um daqueles meninos era o seu filho, exatamente ele, enfim ¿ mas um gesto, um pequeno movimento de cabeça, e deixava de ser. Correu para um lado e outro. De súbito ficou parada olhando o mar, olhando com tanto ódio e medo (lembrava-se muito bem da história acontecida dois a três anos antes, um menino estava na praia com os pais, eles se distraíram um instante, o menino estava brincando no rasinho, o mar o levou, o corpinho só apareceu cinco dias depois, aqui nesta pr aia mesmo!) ¿ deu um grito para as ondas e espumas ¿ "Joãozinho!".

Banhistas distraídos foram interrogados ¿ se viram algum menino entrando no mar ¿ o pai e o amigo partiram para um lado e outro da praia, a Mãe ficou ali, trêmula, nada mais existia para ela, sua casa e família, o marido, os bailes, os Nunes, tudo era ridículo e odioso, toda essa gente estúpida na praia que não sabia de seu filho, todos eram culpados ¿ "Joãozinho !" ¿ ela mesma não tinha mais nome nem era mulher, era um bicho ferido, trêmulo, mas terrível, traído no mais essencial de seu ser, cheia de pânico e de ódio, capaz de tudo ¿ "Joãozinho !" ¿ ele apareceu bem perto, trazendo na mão um sorvete que fora comprar. Quase jogou longe o sorvete do menino com um tapa, mandou que ele ficasse sentado ali, se saísse um passo iria ver, ia apanhar muito, menino desgraçado!

O pai e o amigo voltaram a sentar, o menino riscava a areia com o dedo grande do pé, e quando sentiu que a tempestade estava passando fez o comentário em voz baixa, a cabeça curva, mas os olhos erguidos na direção dos pais:

¿ Mãe é chaaata..."

Maio, 1953

Luluzinha [10:43 AM]

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[ Terça-feira, Maio 23, 2006 ]

 


Um sonho a mais

O sonho de ser poeta
É um sonho corriqueiro
É o sonho do escritor
E o sonho do padeiro

O sonho de ser médico
É um sonho complicado
Há muito que estudar
E muito não pesquisado

O sonho de ser pintor
É um sonho de destreza
É saber pintar sentimento
E também a natureza

Mas o sonho de ser criança
Esse é arriscado
Envolve o cotidiano
Para brincar com o corriqueiro
Envolve a dificuldade
Para os momentos complicados
E muita habilidade
Para malabarismos é necessária a destreza

E mesmo assim
Nunca mais se é pequeno
Só resta mesmo sonhar
Um sonho assim
Bem diferente
Porque os sonhos nos aproximam
Da criança que tem na gente.

Luisa Picanço
Luluzinha [4:43 PM]

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[ Quinta-feira, Maio 04, 2006 ]

 
"Vês, lá longe, os campos de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim é inútil. Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso é triste! Mas tu tens cabelos cor de ouro. Então será maravilhoso quando me tiveres cativado. O trigo, que é dourado, fará lembrar-me de ti. E eu amarei o barulho do vento no trigo..." O Pequeno Príncipe (Antoine de Saint-Exupéry)



Era uma vez um menino e uma menina. A menina adorava ler, ouvir MPB. O menino. por sua vez, amava malhar e ouvir rock. A menina detestava física, o menino era o melhor aluno de física do colégio. Eles se conheceram por acaso, em uma aula de literatura, que ele, aliás, detestava. Mas eles se conheceram antes por foto, tinham um amigo em comum e na casa desse amigo havia fotos dos dois. Eles ficavam namorando a foto um do outro e sonhando.

A menina pensava "Sem dúvidas ele deve amar música brasileira e deve ser louco por poesia e com certeza seu poeta favorito será Carlos Drummond de Andrade" e ele pensava "Ela deve ser aventureira e com certeza vai querer me acompanhar em competições de natação e ela deve ser fascinada pelo Pink Floyd e deve adorar desenho animado!"

Sabe qual era o livro que ele segurava na aula de literatura? Carlos Drummond de Andrade. E adivinhe você o que ela estava fazendo quando ele sentou ao seu lado! Estava desenhando. Foram então cativados. As diferenças? Eles só iam descobrir muito tempo depois. (Luisa Picanço)

" A gente só conhece bem as coisas que cativou, disse a raposa. (...)

E continuou:

- Mas tu não deves esquecer. Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas." O Pequeno Príncipe (Antoine de Saint-Exupéry)

Luluzinha [10:56 AM]

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